A CALÇA APERTADA não
lhe ficava bem. Aquele jeans que mais parecia leg tentava, de forma
frustrada, convencê-la a mostrar suas formosas pernas. Porém, ela
era recatada – talvez pela educação da família, ou por não
gostar do seu corpo – ela não ousava. E o mais interessante: era
feliz assim. Em tempos modernos - onde quase tudo se resume em libertinagem, onde o pudor se
tornou artigo de luxo e os recatados se tornaram pobres vítimas do preconceito
anti-moral - ela ia na contra mão. Não por ser reprimida, mas por preservar o sonho da segurança, do estável. Há pessoas que veem
no movimento um agente caótico: preferem o sossego do inveterado, do
imutável, da tranquilidade. Obsoletos para uns, caretas para outros,
hipócritas para fulanos - felizes para si. Ela, então, vestiu uma
calça moletom. Afinal, seria apenas uma ida ao supemercado. Mulheres
de calça moletom são as mais belas criaturas do universo. Antes de
sair deu uma última olhada no espelho. Suas feições eram de uma
mulher no auge dos seus 32 anos de idade. Fase em que a beleza parece
regredir, porém permanece, numa mutação gradativa que dura até
chegar a verdadeira beleza - que se afirma separando-se dos traços
imaturos da juventude e se perpetuando de forma intrínseca nas cores
matizadas de um olhar.
Sozinha, desceu as escadas do prédio. Eram sete horas da manhã de sábado e o silêncio das ruas lhe agradava. Lá fora o céu estava azul e ela - discreta e desarrumada para os padrões - tratou de andar a passos calmos. No supermercado estavam apenas velhos e funcionários. Nada mais do que o habitual. Ela tratou de fazer as buscas de praxe: bolachas, queijo, pão e talvez um vinho para tomar mais tarde enquanto choraria assistindo Casablanca. A solidão é cruel para uma mulher. Algumas mulheres, raras, são estrelas resignadas que não necessitam da atenção de todos os homens a sua volta, assim, permanecem caladas, sempre na surdina, esperando – talvez até por um complexo infantil de princesa – o homem que saiba apreciar aquela figura quieta e fiel que nunca foi descoberta. Os homens solitários, da mesma forma, são como o pobre narrador que agora vos escreve. Donos de um complexo de poeta mal resolvido esperam – quase sempre de cabeça baixa – uma mulher igual a esta senhorita a que dedicamos o nosso texto. Uma mulher que de tão calada se torne eloquente, pois o silêncio nada mais é do que a eloquência dos sábios. Estes sujeitos, então, esperam, sempre desacreditados no meio da multidão, uma mulher que possam apreciar sem que seja necessário dizer, em palavras ditas, o que os olhos dizem em palavras do sentimento.
Deixando o devaneio de lado, voltemos a narração. Na fileira de queijos ela se distraiu, com seus olhos de amêndoa, olhando o gorgonzola. Percebeu, talvez por intuição ou por soslaio, que estava sendo observada. A discrição é o seu ponto forte e ser observada é uma coisa atípica - ela estava acostumada a observar. Mas talvez fosse apenas impressão. Com um pouco de escrúpulo virou o rosto devagar. Na outra ponta da fileira um homem ficou desconcertado: virou o rosto rapidamente e com gestos trêmulos e nervosos fingiu se distrair com a mussarela. Ele aparentava ter uns 35 anos de idade. Usava um óculos de armação discreta, barba mal feita, aspecto de fumante, cara de escritor intelectual e proprietário de uma calvície estilosa. Uma mistura de Marcelo Camelo com barba rasa e Antônio Prata usando jaqueta. Ela perdeu alguns segundos o observando - afinal era extraordinário uma pessoa relativamente com a mesma idade que ela naquele supermercado aquela hora. Logo os dois saíram da fileira discretamente, perdendo-se um do outro.
As compras seguiram para ela: chocolates, pipoca e talvez algo mais forte do que um vinho para esquecer a solidão. Encontraram-se mais algumas vezes, entre fileiras e produtos, trocando olhares tímidos - olhares que quando se encontravam dispersavam-se como prótons e elétrons. Foram no mesmo caixa e o coração dela disparou quando percebeu que ele estava por perto. Sempre observadora, percebeu que ele tinha cheiro de perfume com enxaguante bocal. Ele, por sua vez, olhava o pescoço dela - branco como a neve, formoso como uma dessas pinturas que retratam europeias e, quase sempre, nos deixam extasiados com sua beleza.
Na saída do supermercado ela tropeçou e caiu. Seu corpo espalhado no chão, vibrando com o tombo, era de uma beleza ainda mais sublime. Algumas pessoas riram. Ele, que estava mais perto, foi prestativo. Com a voz tímida, quase imperceptível, perguntou se ela estava bem. O rubor em sua face era evidente. Parecia uma adolescente. Ele estendeu a mão, ajudou-a a se levantar e pegar suas sacolas. Ela agradeceu com uma olhar tímido, idílico, baixo - beirando a tristeza poética. Naquele instante os olhares tristes encontraram-se. Depois de tantos anos de solidão, de ambos os lados, as solidões fizeram-se companhia. Os passos foram automáticos - iriam para o mesmo lado. Começaram a conversar sobre a trivialidade do tempo enquanto tentavam disfarçar a tensão olhando para a rua, a paisagem, as árvores. Começaram a permitirem-se risadas e os assuntos foram fluindo enquanto as árvores e as paisagens eram trocadas pelos rostos.
Quando olhavam-se eram tocados pelo pudor. O medo remanescente dos dois depois de tanto tempo de solidão ainda era forte. Era um medo em comum. O medo do olhar, de ter o seu rosto fitado por outra pessoa, de ser encarado. Medo de o movimento dos seus lábios – quase sempre tão calados – serem percebidos, apreciados. Tinham muita vergonha, mas alguma força maior não os deixava parar. Então falaram, riram, e o mundo pela primeira vez parecia parado enquanto eles giravam. Era estranho ouvir o próprio riso. Estranho conversar com outra pessoa. Mas estranho - muito mais estranho - era a sensação de felicidade jamais sentida aparecendo assim, de uma fonte tão vulgar, tão inesperada.
Ela quase não percebeu quando chegou no prédio. Despediram-se com um sorriso, trocaram telefones e ele prometeu telefonar mais tarde. Naquela noite conversaram por duas horas. Na noite do dia posterior foram mais duas. Combinaram de almoçar juntos na segunda. Ele realmente era escritor e ela trabalhava produzindo palavras-cruzadas.
Almoçaram, riram, contaram histórias de infância, comentaram sobre os filmes do Mazzaropi e sobre as músicas de Chopin - as músicas de Chopin são a fonte de toda a inspiração e de todas as lágrimas dos solitários. Encontraram-se muitas outras vezes no supermercado, quase como um rito, fazendo compras juntos e rindo por motivos bobos. Os aposentados, tão comuns naquele supermercado aos sábados de manhã, apreciavam com seus olhos sorridentes e suas reminiscências amorosas o evidente – e idílico – amor dos dois.
Passaram-se dois meses desde o primeiro encontro. Ela resolveu convida-lo para jantar em seu apartamento. Tomaram vinho barato, riram com os filmes do Mazzaropi e perderam a noção do tempo. Quando ele resolveu ir embora, a surpresa: eram duas da madrugada. " -Você pode dormir no sofá mesmo. Acho que tenho uma coberta no armário" - disse ela, com olhos de saudade. O problema é que voltaram a conversar sem nem ao menos perceber. Riam alto, faziam piada, se tocavam. Até perder o pudor. Até os olhares se encararem. Até o riso se transformar em desejo. Até o idílio se metamorfosear em volúpia. Volúpia cadenciada, bela, pueril, poetisa, boa, poesia... olhares de poesia. De repente o primeiro beijo. Estalo. O toque dos lábios moles, doces como o mel, culminou com a sensação de insegurança, com o disparar do coração, o arrepio dos pelos, o toque, os sentidos aguçados. O conforto junto com a tensão. O tremer das mãos, o amor deixando suas moradas do âmago, querendo se manifestar no mundo físico. As roupas, aos poucos, tornando-se desnecessárias, os beijos repetidos, os olhares cada vez mais desejosos.
Era a primeira vez dos dois, tão acostumados com a solidão. Duas crianças de meia-idade. Amaram-se. Amaram-se até a eternidade dos instantes, banhados pela penumbra da lua que adentrava as cortinas. Amaram-se pelo silêncio, pela paz. Pela paz. Foi como um sonho. Depois do ápice, do apogeu dos sentidos, beijaram-se sorrindo. Dormiram abraçados aquele sono leve, pós apoteose. Acordaram, ao mesmo tempo, um com o olhar fixo nos olhos do outro. Beijaram-se e fizeram amor outra vez, sob a luz do sol que adentrava as cortinas. Os instantes foram eternos.
A partir desse dia a solidão era apenas uma lembrança de um passado distante, uma amiga que se vai e jamais volta.
Sozinha, desceu as escadas do prédio. Eram sete horas da manhã de sábado e o silêncio das ruas lhe agradava. Lá fora o céu estava azul e ela - discreta e desarrumada para os padrões - tratou de andar a passos calmos. No supermercado estavam apenas velhos e funcionários. Nada mais do que o habitual. Ela tratou de fazer as buscas de praxe: bolachas, queijo, pão e talvez um vinho para tomar mais tarde enquanto choraria assistindo Casablanca. A solidão é cruel para uma mulher. Algumas mulheres, raras, são estrelas resignadas que não necessitam da atenção de todos os homens a sua volta, assim, permanecem caladas, sempre na surdina, esperando – talvez até por um complexo infantil de princesa – o homem que saiba apreciar aquela figura quieta e fiel que nunca foi descoberta. Os homens solitários, da mesma forma, são como o pobre narrador que agora vos escreve. Donos de um complexo de poeta mal resolvido esperam – quase sempre de cabeça baixa – uma mulher igual a esta senhorita a que dedicamos o nosso texto. Uma mulher que de tão calada se torne eloquente, pois o silêncio nada mais é do que a eloquência dos sábios. Estes sujeitos, então, esperam, sempre desacreditados no meio da multidão, uma mulher que possam apreciar sem que seja necessário dizer, em palavras ditas, o que os olhos dizem em palavras do sentimento.
Deixando o devaneio de lado, voltemos a narração. Na fileira de queijos ela se distraiu, com seus olhos de amêndoa, olhando o gorgonzola. Percebeu, talvez por intuição ou por soslaio, que estava sendo observada. A discrição é o seu ponto forte e ser observada é uma coisa atípica - ela estava acostumada a observar. Mas talvez fosse apenas impressão. Com um pouco de escrúpulo virou o rosto devagar. Na outra ponta da fileira um homem ficou desconcertado: virou o rosto rapidamente e com gestos trêmulos e nervosos fingiu se distrair com a mussarela. Ele aparentava ter uns 35 anos de idade. Usava um óculos de armação discreta, barba mal feita, aspecto de fumante, cara de escritor intelectual e proprietário de uma calvície estilosa. Uma mistura de Marcelo Camelo com barba rasa e Antônio Prata usando jaqueta. Ela perdeu alguns segundos o observando - afinal era extraordinário uma pessoa relativamente com a mesma idade que ela naquele supermercado aquela hora. Logo os dois saíram da fileira discretamente, perdendo-se um do outro.
As compras seguiram para ela: chocolates, pipoca e talvez algo mais forte do que um vinho para esquecer a solidão. Encontraram-se mais algumas vezes, entre fileiras e produtos, trocando olhares tímidos - olhares que quando se encontravam dispersavam-se como prótons e elétrons. Foram no mesmo caixa e o coração dela disparou quando percebeu que ele estava por perto. Sempre observadora, percebeu que ele tinha cheiro de perfume com enxaguante bocal. Ele, por sua vez, olhava o pescoço dela - branco como a neve, formoso como uma dessas pinturas que retratam europeias e, quase sempre, nos deixam extasiados com sua beleza.
Na saída do supermercado ela tropeçou e caiu. Seu corpo espalhado no chão, vibrando com o tombo, era de uma beleza ainda mais sublime. Algumas pessoas riram. Ele, que estava mais perto, foi prestativo. Com a voz tímida, quase imperceptível, perguntou se ela estava bem. O rubor em sua face era evidente. Parecia uma adolescente. Ele estendeu a mão, ajudou-a a se levantar e pegar suas sacolas. Ela agradeceu com uma olhar tímido, idílico, baixo - beirando a tristeza poética. Naquele instante os olhares tristes encontraram-se. Depois de tantos anos de solidão, de ambos os lados, as solidões fizeram-se companhia. Os passos foram automáticos - iriam para o mesmo lado. Começaram a conversar sobre a trivialidade do tempo enquanto tentavam disfarçar a tensão olhando para a rua, a paisagem, as árvores. Começaram a permitirem-se risadas e os assuntos foram fluindo enquanto as árvores e as paisagens eram trocadas pelos rostos.
Quando olhavam-se eram tocados pelo pudor. O medo remanescente dos dois depois de tanto tempo de solidão ainda era forte. Era um medo em comum. O medo do olhar, de ter o seu rosto fitado por outra pessoa, de ser encarado. Medo de o movimento dos seus lábios – quase sempre tão calados – serem percebidos, apreciados. Tinham muita vergonha, mas alguma força maior não os deixava parar. Então falaram, riram, e o mundo pela primeira vez parecia parado enquanto eles giravam. Era estranho ouvir o próprio riso. Estranho conversar com outra pessoa. Mas estranho - muito mais estranho - era a sensação de felicidade jamais sentida aparecendo assim, de uma fonte tão vulgar, tão inesperada.
Ela quase não percebeu quando chegou no prédio. Despediram-se com um sorriso, trocaram telefones e ele prometeu telefonar mais tarde. Naquela noite conversaram por duas horas. Na noite do dia posterior foram mais duas. Combinaram de almoçar juntos na segunda. Ele realmente era escritor e ela trabalhava produzindo palavras-cruzadas.
Almoçaram, riram, contaram histórias de infância, comentaram sobre os filmes do Mazzaropi e sobre as músicas de Chopin - as músicas de Chopin são a fonte de toda a inspiração e de todas as lágrimas dos solitários. Encontraram-se muitas outras vezes no supermercado, quase como um rito, fazendo compras juntos e rindo por motivos bobos. Os aposentados, tão comuns naquele supermercado aos sábados de manhã, apreciavam com seus olhos sorridentes e suas reminiscências amorosas o evidente – e idílico – amor dos dois.
Passaram-se dois meses desde o primeiro encontro. Ela resolveu convida-lo para jantar em seu apartamento. Tomaram vinho barato, riram com os filmes do Mazzaropi e perderam a noção do tempo. Quando ele resolveu ir embora, a surpresa: eram duas da madrugada. " -Você pode dormir no sofá mesmo. Acho que tenho uma coberta no armário" - disse ela, com olhos de saudade. O problema é que voltaram a conversar sem nem ao menos perceber. Riam alto, faziam piada, se tocavam. Até perder o pudor. Até os olhares se encararem. Até o riso se transformar em desejo. Até o idílio se metamorfosear em volúpia. Volúpia cadenciada, bela, pueril, poetisa, boa, poesia... olhares de poesia. De repente o primeiro beijo. Estalo. O toque dos lábios moles, doces como o mel, culminou com a sensação de insegurança, com o disparar do coração, o arrepio dos pelos, o toque, os sentidos aguçados. O conforto junto com a tensão. O tremer das mãos, o amor deixando suas moradas do âmago, querendo se manifestar no mundo físico. As roupas, aos poucos, tornando-se desnecessárias, os beijos repetidos, os olhares cada vez mais desejosos.
Era a primeira vez dos dois, tão acostumados com a solidão. Duas crianças de meia-idade. Amaram-se. Amaram-se até a eternidade dos instantes, banhados pela penumbra da lua que adentrava as cortinas. Amaram-se pelo silêncio, pela paz. Pela paz. Foi como um sonho. Depois do ápice, do apogeu dos sentidos, beijaram-se sorrindo. Dormiram abraçados aquele sono leve, pós apoteose. Acordaram, ao mesmo tempo, um com o olhar fixo nos olhos do outro. Beijaram-se e fizeram amor outra vez, sob a luz do sol que adentrava as cortinas. Os instantes foram eternos.
A partir desse dia a solidão era apenas uma lembrança de um passado distante, uma amiga que se vai e jamais volta.
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