ESCRITOS

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Moça Bolha-de-Sabão

PENSO em como começar este texto. Até agora, conto: três vezes apaguei a primeira frase. Pensei em começar com uma narrativa - já reflito demais. Às vezes é bom narrar. Tenho inúmeras críticas a minha escrita: demasiado densa, demasiado chata, demasiado...demasiado. 

Parágrafos pequenos ajudam um tanto. Pensei em começar uma narrativa, sim. Pense: o homem atrás do bigode. Sim, sempre o personagem de Drummond. Por que não, oras? Tenho vinte primaveras de vida. A caminho da vigésima primeira. Quanto aos personagens, de tudo vi um pouco: de Capitu a Rolando Candiano, de Zélia Gattai à Madame Bovary. Claro, quem não? O homem atrás do bigode - o personagem que teve até um nome negado - é o que mais me chama a atenção. Ele é inacabado. Inacabado como eu. Mas isso...isso são histórias outras. 

Vejam a minha preocupação: a assimetria. O parágrafo anterior é maior do que o anterior ao anterior. A assimetria é bela, eu sei. Mas na escrita é horrível. Termino o parágrafo aqui: contento-me com a feiura. 

O homem atrás do bigode estava em um café - vejam bem. Fuma um charuto, um cigarro - decidam vocês. Qualquer coisa que soe vintage. Pois bem: ele toma um café. Está fora do pub, claro. As crianças passam na rua. É cedo. Uma dessas crianças solta, direto de seu brinquedo, uma bolha-de-sabão.

A bolha-de-sabão é um universo inteiro. Um universo colorido.  

Pronto. Esqueçam tudo o que eu disse. Cheguei onde queria. Acabou. O quê? Não gostou? Leia Machado de Assis. O quê? Gostou? Não continue. Você pode desgostar.

Sentença: canetas escorregam em suas palmas. Dedos deslizantes e sapatos cor de paraíso. Vejo e paro e penso e reflito e sinto. Um universo dentro de um olhar. Uma bolha-de-sabão. Essa é você: uma bolha-de-sabão. Um universo - minto: multiverso - a ser descoberto. Colorido e feliz. Cheio de rancores e mágoas e traumas guardados lá dentro. Leve como uma bolha. Uma bolha de sabão.  

Se você esqueceu o homem atrás do bigode, verdade seja dita: você é um estulto. O homem atrás do bigode é indelével. Ele - que pode ser eu, se quiser - passou a vida tentando descobrir o que o atraía. Por que - Deus meu, por quê? - pessoas normais, garotas normais, não o atraiam. Até ver a bolha. A bolha-de-sabão. A bolha é a chave da compreensão. 

Moças bolha-de-sabão são aquelas que palavras não descrevem. São leves como o ar. Malucas. São tudo o que o homem - que é sério, simples e forte; lembram? - não é. Seu vestido cor de renda e seu olhar livre de maldade é alguma coisa transcendente. 

Seus pés pequenos, seus olhos amendoados e suas saboneteiras escondidas embriagam. Embriagam como aguardente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário