Hoje eu acordei com
frio.
Havia um cobertor
grande mas eu estava com frio. Não há coisa melhor do que essa
sensação térmica que parece ter sido criada por Deus justamente
para acompanhar a poesia. Todas pessoas que escrevem, ou quase todas,
conhecem a nossa santíssima trindade: o frio, o café e a poesia.
O frio une os casais
apaixonados. O frio une os irmãos e as mães que moram na miséria
da rua. Nele os corpos se unem num misto de amor, tristeza e esperança. O
frio nos faz pessoas melhores, nos convida a praticar a empatia tão
rara em tempos modernos. Ora pois, quem nunca se pegou pensando –
em um desses dias gélidos e nostálgicos – como estariam as
pessoas que moram nas ruas? O nosso sinônimo de
indiferença e insensibilidade aquece os corações.
Hoje eu acordei com
frio.
Penso nos casais que
acordaram na mesma cama, abriram os olhos e focaram o rosto um do
outro. É segunda-feira, eu sei, mas penso que talvez, em algum
lugar, algum casal tenha se encarado por breves instantes e depois,
sem perguntas nem palavras, se beijaram, se abraçaram, se
protegeram da sensação gelada, pediram abrigo nos corpos um do
outro. É uma troca de favores, é um momento de proteger e ser
protegido. O frio une os corpos, as almas, os medos. Contrai o nosso egoísmo.
Imagino as mulheres
acordando cedo e fazendo o café para os seus maridos, homens
trabalhadores, que acordam cinco da manhã para cruzar a cidade e
trabalhar em algum bairro nobre de São Paulo como pedreiros. Imagino
estas nobres esposas fazendo a marmita escassa, dando um beijo com
gosto de café em seu amado e pedindo que, por favor, ele volte
cedo. Então ele sai, agasalho com uma jaqueta fria, para as ruas da
cidade, para a batalha cruel, buscar o sustento da sua família, das suas crianças. Penso
nos seus filhos acordando e indo pra escola com a mãe. O frio é
nostálgico, é triste, é poético.
Penso agora nos homens
sozinhos, andarilhos bêbados pelas ruas da cidade, pedindo dinheiro.
Cada um com sua história, suas paixões de adolescência, sua falta
de fé no mundo.
O que nos resta agora é
praticar a empatia e nos unir, corpos em corpos, olhares em olhares,
beijos em beijos. Nos unir contra o inimigo em comum. Nos unir para
proteger e sermos protegidos. É em tempos de guerra que a união se
faz mais presente e é em tempos de frio que a humanidade se faz mais
humana.
M&M.

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