ESCRITOS

domingo, 31 de maio de 2015

Gênesis, 3:19

A passagem do tempo é irremediável. Não há nada, não existe um catalisador ao contrário, um botão de start, nada pode reduzir a marcha – lenta e incessante - do tempo. 

O frio que existe lá fora é o agora. Amanhã sei que o tempo mudará: mudará porque passou, e o amanhã já não será o que hoje é o agora. No entanto, o agora de amanhã também se chamará agora. Minha sentença é digna de Confúcio, mas confusão mesmo é o que reside no meu pensamento.

O tempo é escasso. Imprevisível.

Há guerras, brigas, choros, tristezas, egoísmo, egocentrismo, falta de empatia, humilhações: e o tempo, tão curto, tão breve, tão frio e calculista, é gasto – sem a mínima reflexão – com toda sorte de sacrilégios. E depois vem a morte – reflexo do tempo que chegou, passou, ou deixou de passar – e o que resta de tudo o que existiu é a lembrança.

Lembranças são vidas que morreram, tristezas que inexistem de fato, mas que existem no âmago de quem lembra.

O homem atrás do bigode – aquele dos versos de Drummond – hoje acordou sem saber para onde iria. Pegou o metrô, pois os bondes não existem mais. São lembranças. Viu pernas brancas, negras, amarelas e se questionou o porquê de tantas pernas. Mas seus olhos não indagaram nada.

O homem atrás do bigode – que antes era sério, simples e forte – hoje é apenas a lembrança nos versos de um poeta - poeta que hoje também é só uma lembrança.

No futuro eu também serei uma lembrança. E esse texto – mal 
redigido, errático, sem estética – também será uma lembrança de outras lembranças.

E eu serei pó.


E quando se lembrarem de mim lembraram-se das reminiscências que um dia escrevi.

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